Refletions on the Revolution in Europe (Christopher Caldwell)

Dois fenômenos contribuíram para que a imigração em massa se tornasse um dos fatores preponderantes na Europa de hoje: a globalização e a formação da União Européia. Com fronteiras mais fluidas, o intenso deslocamento de pessoas se tornou uma marca da atualidade. Diante da possibilidade de migrar para um continente rico, marcado pela distribuição de benefícios do welfare state, foi natural que um contigente cada vez maior, especialmente oriundo do norte da África, Oriente Médio e Turquia, migrassem para o continente europeu. Em comum à maioria, a fé islâmica.

Qual o significado dessa imigração para a realidade européia? Quais as suas repercussões e perspectivas para o futuro? São perguntas que o colonista do New York Times Christopher Caldewell procura responder com seu livro Reflections on the Revolution in Europe.

O autor evita o tom político ao não tomar partido na questão da imigração; a toma como um dado da realidade. Também não julga a imigração em si, evitando que o livro se torne um manifesto  e atinge o objetivo a que se propôs, ser uma reflexão sobre a revolução que está acontecendo na Europa, fruto principalmente das alterações em sua demografia. Com limites definidos e claros, Caldwell faz uma análise dividida em três partes: a imigração, o islã e o ocidente. A imigração é o elo que está colocando lado a lado o islã o ocidente e seu principal palco é a Europa.

Em certo sentido, trata-se de constatações do homem comum, colocados em termos claros e honestos, por mais que incomode a pessoas que não querem tratar certos assuntos por serem desagradáveis. Só que um  problema não deixa de existir porque nos recusamos a tratá-lo, justamente o que Caldwell quer evidenciar.

A imigração em si já é um assunto complicado, mas a coisa se agrava pela natureza dos migrantes, particularmente pela questão religiosa e política do islamismo. Caldwell toca no ponto com propriedade quando constata:

Yes, immigrants “just want a better life”as the cliché goes. But they don’t want necessarily a European life. They may want a Third World life at a European standard of living.

Em outras palavras, o imigrante muçulmano quer viver a vida na Europa e não uma vida européia; quer viver sua cultura, seus valores, mas no nível de desenvolvimento e conforto europeu. A questão é que esta Europa é uma criação baseada em determinados valores como a liberdade, inclusive de expressão, a separação de Igreja e Estado, a tolerância ao contraditório, a primazia da razão. Como conciliar a tensão entre valores culturais que se chocam dentro de uma unidade política moldada por um determinado conjunto cultural?

Ao contrário do que aconteceu nos Estados Unidos, paradigma de sucesso de uma nação construída também pela força da imigração, os novos habitantes europeus não querem a assimilação cultural, pelo menos não a deles. Ao contrário, à medida que se tornam mais fortes, querem que a Europa se acomode à sua própria cultura. Por enquanto seu poder é limitado, mas é crescente. O que acontecerá quando forem maioria? Ou tiverem votos suficientes para definirem as políticas em um regime democrático? Poderiam chegar ao ponto de votar democraticamente a instalação da Sharia em um país?

Para complicar ainda mais as coisas, não são os valores cristãos que estão em conflito com o islã, mas justamente o abandono desses valores. São as premissas de uma sociedade hedonista, em que a maior regra parece ser a de não ter regras, como disse um dia Bernard Shaw, que são inaceitáveis para os novos habitantes europeus. Esta tensão tem deixado a esquerda, tradicional defensora desses novos valores, desnorteada. Como conciliar o feminismo com o papel da mulher em uma sociedade muçulmana? E a tolerância com o homossexualismo? A livre manifestação artística? Em muitos casos o medo tem sido mascarado em tolerância. Não é por tolerância ou respeito que se evita criticar as premissas religiosas do islã, mas por puro medo.

Em sua conclusão, após apontar as várias tensões existentes, Caldwell coloca que de um lado existe uma cultura vacilante, que não sabe exatamente quais são seus valores e muitas vezes os questiona severamente. De outro, uma cultura antiga que parece cada dia mais viva, carregada por homens e mulheres dispostos a defender seus valores, claros e inquestionáveis. Suas últimas palavras são uma reflexão em si:

When a insecure, malleable, relativistic culture meets a culture that is anchored, confident, and strengthened by common doutrines, it is generally the former that changes to suit the latter.

Se antes de ler o livro de Caldwell já via a questão como preocupante, agora mais ainda. A Europa está sendo mudada e será diferente do que foi daqui a alguns anos. Não sei se chegará um ponto em que a demografia se estabilizará, mas resta evidente que em um futuro próximo veremos uma composição em que os europeus brancos serão em sua maioria idosos e os jovens serão em sua maioria imigrantes, particularmente muçulmanos. Não vejo como o welfare state possa se manter, e não está se mantendo. Cada vez mais me convenço que os problemas econômicos da Europa não são de origem econômicas; Marx estava errado, economia é consequência e não causa.

Não vejo como a sociedade moderna européia, baseada no “carpe diem” possa sobreviver ao conflito que apenas se inicia como o islã. Há solução? Não sei. Mas parece-me fundamental o resgate dos valores judaico-cristãos e a aceitação de que os valores tão caros do liberalismo econômico e político, da democracia, da tolerância, são heranças dessa cultura e não criações do iluminismo ou da era da razão. São essas raízes que fizeram a Europa e que a mantém como civilização. Sem elas, não existe Europa.

u© MARCOS JUNIOR 2013