Três Sermões do Padre Antônio Vieira

Sermão Vigésimo Sétimo, com o Santíssimo Sacramento Exposto

Padre Vieira posiciona-se de maneira firme e mostra como o cristianismo é incompatível com a escravidão. As palavras abaixo são belíssimas e mostram sua inspiração e talento:

Estes homens não são filhos do mesmo Adão e da mesma Eva? Estas almas não foram resgatadas com o sangue do mesmo Cristo? Estes corpos não nascem e morrem, como os nossos? Não respiram com o mesmo ar? Não os cobre o mesmo céu? Não os aguenta o mesmo sol? Que estrela é logo aquela que os domina, tão triste, tão inimiga e tão cruel?

Para falar da escravidão, Vieira trata do cativeiro da babilônia e apresentava uma mensagem de esperança aos negros escravos, nada acontece sem uma razão. O cativeiro dos filhos de Israel fez parte da conquista da liberdade que viria depois. Em uma mensagem bastante atual, lembra: David gerou a Salomão. David significa o guerreiro; Salomão o pacífico. "Nascer Salomão de David quer dizer que da guerra havia de nascer a paz; e assim foi". Vieira já entendia que muitas vezes a paz só pode ser assegurada pela guerra, um paradoxo mais vivo do que nunca nos tempos atuais. 

Apesar da condenação que Vieira fazia à escravidão dos negros, sua crítica era mais profunda, referia-se ao conceito mais amplo. Para ele, haviam dois tipos de escravidão, a do corpo e da alma. O que usualmente considera-se como escravo é apenas um destes tipos, a do corpo. A segunda forma de escravidão era ainda mais profunda, a da alma. O mais interessante é que esta só ocorre por permissão do cativo, a escravidão da alma é opcional. "De que modo se cativam as almas? Quem são os que as vendem, e a quem as vendem, e por que preço? ... os que as vendem, é cada um a sua; a quem as vendem é ao demônio; o preço por que as vendem é o pecado".

Lembrei do martírio dos judeus na segunda guerra. Seus corpos foram escravizados pelos nazistas, mas suas almas permaneceram intactas ao caminharem com dignidade para os fornos crematórios. O mesmo vale para os camponeses russos dizimados pela engenharia social soviética, os escravos negros que vieram da África. O que mais me incomoda nos dias de hoje é que em nome de um progresso utópico se deseja a escravidão da alma, coisa que Orwell captou bem em 1984.

Padre Vieira conseguiu fazer um posicionamento claro contra qualquer tipo de escravidão e evidenciar que não havia lugar para a submissão de um homem ao outro dentro da doutrina de Cristo.


Sermão da Visitação de Nossa Senhora


Neste sermão, Vieira denuncia a enfermidade de todo um país, O Brasil. Para ele, o país carecia da privação da justiça. "É pois a doença do Brasil (...) falta da devida justiça, assim da justiça punitiva, que castiga maus, como a justiça distributiva, que premia os bons".

Vieira mostra que a justiça tem duas faces, uma punitiva e outra distributiva. Observando o debate(?) que existe no Brasil de hoje, há um clara confusão do conceito de justiça, contaminado por anos de contaminação cultural marxista. A justiça punitiva é rechaçada e busca-se um ideal utópico de inexistência do mal, de ausência do crime, de não responsabilização dos agentes. Por outro lado, muito se defende a mediocridade, a falta de valorização do bem, o nivelamento por baixo. Já escutei em um estabelecimento de ensino que não se deve premiar os bons alunos para não causar constrangimento aos medianos ou fracos, que um professor não pode ganhar uma bonificação por seu desempenho por ser uma injustiça com os menos competentes. Será que o diagnóstico de Vieira aponta ainda hoje para a raiz de nossos males? Será a falta de justiça o que temos de pior? Nas palavras do religioso:

.. e esta é a causa original das doenças do Brasil - tomar o alheio, cobiças, interesses, ganhos e conveniências particulares, por onde a justiça se não guarda e o Estado se perde.


Sermão do Espírito Santo

Este é um dos sermões de Vieira que possui uma mensagem evidente mas que pode revelar muito mais. Escrito como uma reflexão sobre a catequese dos Índios, serve para a relação do homem com a revelação da verdade divina ou mesmo para a educação em seu sentido mais completo.

Lembra que para ensinar não basta palavras e conhecimento, é preciso amor, "o mestre na cadeira diz para todos, mas não ensina a todos". Isto não vale apenas para quem ensina, mas para quem aprende também. Não basta apenas ouvir, é preciso que se deixe a luz penetrar no espírito. "Para converter almas, não bastam só palavras, são necessárias palavras e luz:.

Falando especificamente sobre o Brasil, Vieira lembra da lenda que São Tomé teria vindo ao país em sua viagem ao oriente. Deus teria dado esta incumbência para o mais incrédulo dos apóstolos porque aqui a carga seria mais pesada; no Brasil pregaria aos mais bárbaros. Quando os portugueses chegaram no século XVI teriam encontrado rastros do pregador, mas não rastros da pregação. E qual seria o grande problema dos índios brasileiros? A facilidade que tinham para crer. Esta facilidade traduzia-se também na grande rapidez para perder a crença adquirida. O índio brasileiro não opunha resistência ao evangelho, mas sua crença na verdade era uma incredulidade, uma falsa fé. Não seria o brasileiro de hoje um depositário da característica dos índios de ontem.

Outubro, 2009

u© MARCOS JUNIOR 2013