Sermão da Sexagésima

Se a palavra de Deus é tão eficaz e tão poderosa, como vemos tão pouco fruto da palavra de Deus?

Este é o questionamento que o padre Antônio Vieira tentou responder neste sermão de 1655. Seu fundamento bíblico é a parábola do semeador, encontrada em Matheus capítulo XII, v 3. Na parábola, ao semear, os grãos de trigo tiveram quatro destinos e todas brotaram:

  1. as que caíram "ao pé do caminho", os homens pisaram e as aves levaram;
  2. as que caíram nos espinhos foram sufocadas;
  3. as que caíram nas pedras, secaram; e
  4. as que caíram na terra boa deram frutos.
semeador

O trigo é a palavra de Deus e o semeador é o pregador. Os locais onde caíram as sementes, a palavra de Deus, são os corações dos homens. Os espinhos são os corações emabaraçados com as riquezas e delícias da vida; a palavra de Deus se "sufoca" com a ilusões que ele carrega consigo. As pedras são os corações embrutecidos; seca pela falta de amor. O caminho é o coração atormentado e inquieto; a palavra de Deus é pisada porque não se tem a devida atenção à ela. Por fim, os corações puros são onde a palavra de Deus chega a frutificar.

Para analisar o problema colocado, o padre Vieira levanta três possibilidades. O problema estaria no pregador, no ouvinte ou em Deus.

De partida, Vieira afasta a hipótese de Deus por proposição de fé: Deus não falta, nem poderia faltar. A própria parábola mostra que nenhum efeito externo, chuva ou seca, fizeram as sementes lograr: "... deixar de frutificar a palavra de Deus, nunca é por falta do Céu, sempre é por culpa nossa".

Em seguida, afasta o ouvinte. Em todos os casos, as sementes brotaram mostrando que a força de Deus é tão poderosa que sempre terá um efeito no coração do homem, por mais bruto que seja.

Portanto, Veira coloca a culpa nos pregadores. E que culpa seria essa? Seria a própria pessoa do pregador? A matéria? O estilo? A voz? A ciência? Para ele, a grande questão seria o afastamento da palavra de Deus. O pregador estaria pregando palavras fora do seu significado verdadeiramente cristão, estaria pregando palavras de Deus e não a palavra de Deus. Lembra que as palavras fora de seu significado sempre foi uma arma do diabo, foi uma das maneiras de tentar Cristo no deserto.

Se os pregadores semeiam vento, se o que pregam é a vaidade, se não se prega a palavra de Deus, como não há a Igreja de Deus de correr tormenta em vez de colher fruto? (...) De sorte que Cristo defendeu-se do diabo com a Escritura, e o diabo tentou a Cristo com a Escritura (...) Cristo toma as palavras da Escritura em seu verdadeiro sentido, e o diabo tomava as palavras da Escritura em sentido alheio e torcido; e as mesmas palavras, que tomadas em verdadeiro sentido são palavras de Deus, tomadas no sentido alheio, são armas do diabo.


Para Vieira, os pregadores passaram a se preocupar com o que o ouvinte gostaria de ouvir, alimentando a própria vaidade. A verdadeira pregação cristã chama-o à responsabilidade, mostra seus pecados, mostra sua imperfeição. Esta é a que frutifica, esta é a verdadeira palavra de Deus.

Preguemos e armemo-nos conra os pecados, contra as soberbas, contra os ódios, contra as ambições, contra as invejas, contra as cobiças, contra as sensualidades.


u© MARCOS JUNIOR 2013