Um texto sobre a reconstrução da Europa e uma discussão

Terminei de ler ontem o capítulo 17 de Tempos Modernos, obra do britânico Paul Johnson que analisa os acontecimentos mundiais do século XX.

Trata-se do capítulo que aborda como a Europa conseguiu superar os traumas da II Guerra Mundial e se firmar como centro próspero em um período relativamente curto. Johson credita este "milagre" à atuação de três homens: Adenauer, de Gasperi e de Gaulle. Sobre os dois primeiros comenta:

No fim da guerra, em 1945, Alcide de Gasperi tinha 75 anos e Adenauer, 69. Ambos eram homens das fronteiras, católicos devotos, antinacionalistas, que reverenciavam a família como unidade social, odiavam o Estado (exceto como uma necessidade mínima e lamentável) e acreditavam que a característica mais importante da sociedade organizada era o Estado de direito, que deve refletir a Lei Natural, ou seja, a predominância dos valores absolutos.


Eles se opunham, em resumo, a muitos aspectos que o século XX colocaram em relevo. Falando de De Gaspari, Johnson coloca que ele era imune às duas grandes doenças dos tempos modernos: nacionalismo étnico e crença de que os Estados nele baseados podem ser transformados em utopia. Em 1925 criticava o fascismo que surgia na Itália afirmando que eram a antítese do conceito cristão de Estado, que estabelecia que os direitos naturais da personalidade, família e sociedade estão acima do Estado.

De Gaspari foi responsável pelo fortalecimento do novo Partido Democrático Cristão que derrotando o partido social-democrata e comunista conseguiu formar um governo homogêneo e estabeleceu, por uma geração, um padrão de estabilidade relativa na Itália. Durante os 8 anos que esteve no poder (1945-1953), a Itália alcançou respeitabilidade, entrou na OTAN, ligou-se à Comunidade Européia do Carvão e do Aço (embrião da Comunidade Econômica Européia) e estabeleceu as condições para o desenvolvimento econômico italiano.

O sucesso de de Gaspari facilitou o trabalho de Adenauer na Alemanha. Opositor do nazismo desde seu início, Adenauer não aceitava o totalitarismo como expressão política. Segundo ele:

A antítese verdadeira do Nacional-Socialismo era o individualismo, uma sociedade onde acordos privados teriam prioridade sobre os públicos, onde a família se apresentava como a unidade social preferencial e onde o princípio voluntário era o valor supremo (...) Adenauer acreditava numa sociedade na qual a família, enquanto oposição ao partido político e ao programa ideológico, era o ponto de partida para a reconstrução, a resposta ao mal totalitário.



Adenauer manobrou com eficiência com o grande objetivo de guinar a Alemanha para o mundo democrático ocidental. Federalista convicto, rejeitava planos de uma reunificação alemã que conduzisse a um novo estado forte e centralizado, o nacionalismo alemão não poderia ressurgir. O novo Estado não deveria dominar o indivíduo. A todos era permitido tomar uma iniciativa em todas as facetas da existência. A ética cristã seria a base da comunidade alemã.

O resultado é conhecido. Adenauer ligou o destino da Alemanha com o da França, construiu as bases da Europa Unificada e transformou um país destruído na maior economia européia. De quebra estabeleceu uma constituição equilibrada que transformou o país em uma sólida democracia afastando de vez o fantasma do totalitarismo.

A ligação com a França só foi possível pela ação determinada de outro grande personagem do século XX, Charles de Gaulle.

Depois de ter deixado o poder em 1946, o velho general retornou em 1958 para literalmente colocar ordem na casa e evitar uma tragédia ainda maior na Argélia. Segundo Johnson, a recuperação da França nos anos 60 e 70 é um dos fenômenos mais marcantes dos tempos modernos.

De Gaulle era, antes de tudo, um intelectual. Cercou-se de homens notáveis para conduzir os destinos de seu país. A reconstrução econômica foi confiada à Jean Monnet que acreditava ser os regulamentos destinados a produzir uma competição perfeita e não utopias.

De Gaulle abordava assuntos militares sob idéias filosóficas e políticas. Dizia que a verdadeira escola de comando estava na cultura geral e completava: Por trás das vitórias de Alexandre, encontra-se sempre Aristóteles.

Foram três homens que colocaram seus países na rota do desenvolvimento rejeitando as teorias de fortalecimento do Estado e colocando toda sua fé na força dos indivíduos e da família. Mostram que a ética cristã pode servir de base para um verdadeiro Estado democrático e de Direito, uma lição que o mundo do século XXI quer não só esquecer, mas enterrar.


A discussão

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É... pena que de Gaulle não era antinacionalista como seus colegas italiano e alemão pois criou muita dor de cabeça aqui no Canadá incitando o separatismo do Quebec.

Só uma pergunta - o que vc entende por ética cristã e um estado cristão?

PS: essa interpretação da história do século 20 seria questionada por muitos historiadores atuais e não por causa da ideologia de ditos historiadores…

2

Concordo inteiramente com seu comentário sobre de Gaulle, embora ache que seu nacionalismo era necessário em sua época pois o governo francês era uma verdadeira anarquia e a Argélia era uma questão muito séria e piorava a cada dia. Com um governo incapaz de tomar decisões a situação tendia a um desastre muito maior do que foi.

Sobre ética cristã aí temos um tema muito difícil de tratar pela extensão e profundidade.

Entendo um sistema ético como um sistema de valores que nos leva a nos posicionar sobre nossa própria existência. A ética cristão seria um sistema baseado nos ensinamentos que Jesus Cristo deixou à humanidade. Estes ensinamentos não foram apenas de caráter religioso, mas filosóficos também. Muito do que Cristo disse já havia sido adiantado por Sócrates alguns séculos antes.

Algumas bases desta ética são a crença na imortalidade da alma, o amor ao próximo, o perdão, a compreensão que somos imperfeitos e que não atingiremos a perfeição nesta vida, a pregação da humildade, o entendimento que a verdadeira felicidade não é deste mundo e que temos o livre arbítrio para tomar nossas decisões. Isto implica que não teremos uma sociedade perfeita sobre a Terra, o que, a meu ver, incompatibilizar totalmente o cristianismo com qualquer doutrina política que retire a liberdade humana em favor de uma utopia de mundo socialmente justo.

Acredito que a civilização ocidental é baseada em três pilares, a filosofia clássica (principalmente Sócrates e Aristóteles), o direito romano e a tradição judaico-cristã. Quando nos afastamos destes pilares, o edifício começa a ruir e a sociedade começa a entrar em colapso.

Um estado cristão seria um que reconheça o valor desta tradição e deste sistema ético. Não quer dizer que não aceite a liberdade religiosa, Cristo pregava a reforma íntima voluntária e criticou a religião organizada que colocava os aspectos exteriores da crença acima da alma.

Vejo nos dias de hoje, com preocupação, que se propaga a idéia de que a religião é uma forma de impedir o pensamento, que o laicismo é uma forma superior e mais livre de raciocinar. Penso justamente o contrário. O cristianismo me faz ver o mundo como um todo e pensar a existência de uma forma muito mais ampla do que, por exemplo, um ateu. Aquele que se afasta de Deus se afasta da verdade pois o substitui por uma criação humana como a ideologia, os valores materiais, a violência, a crença que a ciência nos dá todas as respostas, o sexo, o dinheiro. Este processo foi muito bem descrito pelo filósofo italiano Giovani Reale no livro O Saber dos Antigos, Terapia para os Dias Atuais. 

Acredito no cristianismo, e não estou falando em Igreja Católica, estou usando o sentido mais amplo, o da crença em Cristo, como a forma mais sublime de pensar a existência. Acho este o principal patrimônio a ser defendido em dias tão obscuros. Esta é a verdadeira Idade das Trevas.

3

Eu acredito que uma pessoa pode ser evoluída espiritualmente, de uma ética e moralidade de alto nível sem necessariamente acreditar em Cristo ou ter qualquer formação religiosa. Aliás, muitas das pessoas mais evoluídas que eu já conheci ou não eram cristãs ou simplesmente tinham abandonado o cristianismo. 

Apesar de pessoalmente acreditar na imortalidade da alma e na evolução espiritual, não acredito que essa ética deva ser necessariamente aplicada a uma teoria política pois isso pode levar a uma aceitação dos problemas sociais - aquela coisa da fixação do destino de cada um; "o pobre nasceu pra ser pobre mas não tem problema pois a ele pertence o reino dos céus". 

Apesar de estarmos nesse mundo para aprender ou por em prática lições que aprendemos em outras vidas, não acredito que não tenhamos a obrigação de melhorar o mundo em que vivemos. Eu acho que o individualismo exarcebado não deixa de ser uma forma de materialismo e egoísmo. Acho que a evolução pessoal está atrelada aos nossos esforços para ajudar na evolução da sociedade como um todo. 

Quanto aos três pilares, interessante a idéia mas um pouco romantizada. "Acredito que a civilização ocidental é baseada em três pilares, a filosofia clássica (principalmente Sócrates e Aristóteles), o direito romano e a tradição judaico-cristã. Quando nos afastamos destes pilares, o edifício começa a ruir e a sociedade começa a entrar em colapso." Bom, na época medieval, as sociedades menos influenciadas pelo direito romano tinham um sistema social mais flexível e egalitário; a mulher, por exemplo, tinha uma posição social mais alta e personalidade jurídica. Mas outros elementos do sistema germânico eram mais subjetivos como o julgamento e o conceito de prova. Na maioria dos lugares imperava uma mistura do direito romano e germânico, existindo meio que um equilíbrio. Mas a medida que o direito romano foi se fortalecendo as mulheres foram perdendo seus direitos (sim, pq fazia parte da concepção romana e da tradição cristã conceber a mulher como um ser inferior que não tinha personalidade legal) e ao menos no caso da Espanha, campesinos foram perdendo sua liberdade e suas terras. Mas o direito romano era atraente para os dirigentes dos estados em desenvolvimento pois permitia uma maior centralização do poder. Não estou dizendo que o que existia antes era melhor ou que o direito romano ou a filosofia clássica deveriam ser descartados. Claro que não. Mas estou dizendo que dependendo do aspecto ou do ângulo, podemos dizer que o fortalecimento dos três pilares não é sempre uma coisa positiva. Depende do ângulo em que se examina a coisa.

Vc sempre reclama do estado; bom, é exatamente o direito romano que permitiu ao estado chegar a estatura que chegou e a coibir a liberdade individual em nome do bem público. 

Não sei se "se afastar dos três pilares" seria uma boa forma de entender o que acontece no mundo hoje. Isso seria presumir que esses três pilares sempre ou um dia estiveram perfeitamente entrincherados e o conceito de colapso implica dizer que se e quando esses pilares estiveram firmes, havia harmonia nessa sociedade. Não é o caso. A história ocidental é mais complicada do que isso e se move de uma maneira não muito linear.

4

Em nenhum momento disse que uma pessoa precisa acreditar em Jesus para ser moralmente evoluída. O que sustento é que considero a moral cristã a mais perfeita que já surgiu na humanidade. Se não pensasse assim, não seria cristão não é verdade?

O fato de ser cristão não implica em aceitar os problemas sociais. A pregação cristão foi justamente no sentido inverso, uma mensagem acima de tudo de compaixão e ajuda ao próximo. O que questiono é a crença de que é possível estabelecer uma sociedade perfeita sobre a Terra, ainda mais se o patrocinador for o estado. Isso já matou milhões.

Outro ponto importante sobre Jesus foi que ele resgatou o papel da mulher na humanidade. A primeira vez que se revelou como messias e falou sobre a natureza de sua missão foi justamente para uma mulher, o que foi descrito em A Samaritana.

Não podemos julgar o passado com as lentes de hoje. Realmente a sociedade não considerava a mulher como igual, mas para isso temos a evolução espiritual da humanidade e isso foi mudando aos poucos. A Igreja Católica, como instituição, cometeu erros muito graves neste processo, mas preservou a idéia de que toda vida humana é sagrada, o que foi muito importante para todos nós.

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Eu também acredito nos ensinamentos de Jesus mas não sei se posso dizer que a moral cristã é a mais perfeita já que muito do que Jesus pregava, Confúcio já defendia 600 anos antes. Eu acho que a moral de Cristo, nos seus elementos mais básicos, é uma moral universal aceita como ideal na maioria das culturas. 

A perfeição não existe mas não vejo nada demais em acreditar que devemos lutar por uma sociedade melhor, com mais paz, justiça social, saúde, educação e oportunidades para todos. E instituições públicas, incluindo o estado, pode desempenhar um papel importante nesse processo desde que respeitados os direitos e deveres básicos de seus cidadãos. Afinal, esse é o papel do estado - servir a seus cidadãos. 

PS: eu não estava julgando o passado com as lentes de hoje. Como historiadora, nunca poderia fazer isso. Eu estava dizendo que do ponto de vista da mulher da Idade Média, o direito romano não foi uma boa pois levou a perda de muitos direitos que tinha. Foi só um exemplo de que os tais pilares não são tão preto-e-branco. A historia não obedece uma progressão linear.

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A mensagem de Jesus foi antecipada por muitos, esse é um dos ensinamentos do espiritismo. Não li Confúcio, pouco conheço dos orientais. Leia Platão. Sócrates antecipou as mensagens de eternidade da alma, de amor ao próximo, de preocupação com a reforma íntima. Se pudesse te dar um conselho este seria um, corra até a livraria mais próxima e compre Apologia de Sócrates. O livro é extremamente curto mas de uma densidade de ensinamentos impressionante.

A perfeição não existe? Pois acredito que sim, e vemos isso todos os dias. A minha maior divergência contigo é que acredito que não se pode impor a moral de fora para dentro do indivíduo, através de leis e coação do estado. A reforma é íntima. Cabe a todos nós ajudar nosso semelhante a entender isso, a melhorar sua conduta, a aprender o valor da virtude.

Sobre justiça social vejo muita demagogia e hipocrisia no mundo. Não acredito nela, acredito em melhoria da sociedade, em crescimento pessoal que impulsiona toda uma comunidade. O papel principal neste processo, ao meu ver, é da própria sociedade e não do estado. A célula fundamental deste gigantesco organismo é a família. Ela é imperfeita, eu sei, por isso a sociedade também é. Fortaleça a família e estará fortalecendo a sociedade. Vejo uma seqüência lógica entre reforma íntima, melhoria da pessoa, melhoria da família, melhoria da sociedade.

E onde entraria o estado? Na segurança para que este processo ocorra. Na garantia dos direitos individuais e não na transformação de direitos em deveres. No complemento da atuação da sociedade e não competindo com ela. Não acredito que um recurso seja melhor gerido pelo estado do que seria pela sociedade.

E o que seria sociedade? As famílias, as escolas, as instituições religiosas, as empresas, os trabalhadores e até mesmo o estado. A meu ver o estado tem que gerir o mínimo possível para que esta sociedade funcione. E isso me coloca no campo oposto do estado do bem estar social.

Sobre o direito romano, não sou jurista, tenho conhecimentos bastante limitados, mas sei que uma das suas virtudes é entender que as leis devem evoluir com a sociedade. O direito prevê sua evolução e mudança de seu arcabouço legal, se não teríamos em vigor as mesmas leis da época de César. 

O direito romano pode ter limitado o direito das mulheres em alguns locais, mas foi em todos? Será que em toda Europa as mulheres eram respeitadas? Será que em muitos lugares não aconteceu exatamente o oposto do que narrou? 

Se até hoje, com todas as facilidades de comunicação, temos civilizações em diferentes estágios de evolução, imagino que na Idade Média era ainda pior. Não sei se podemos usar o termo a mulher da Idade Média.

Acho que em alguns lugares da Europa pudesse ser encontrado aldeias ou povos mais avançados do que os romanos em alguns pontos, mas não como civilização. Não foi apenas pelo poder das armas que uma cidade se tornou um império daquelas dimensões. Uma vez De Gaulle afirmou que por trás de toda vitória de Alexandre havia Aristóteles por trás. O francês acreditava que a maior fonte de conhecimento de um general era a cultura geral



u© MARCOS JUNIOR 2013