Um dia em que quase entrei na faca

Por muito pouco não entrei na faca ontem, muito pouco mesmo. Fiz a tomografia do abdome pela manhã e, para minha completa surpresa, o laudo apontou para apendicite. Uma hora depois dava entrada na emergência do hospital com um quadro bastante atípico. Clinicamente estava bem, mas havia a leucocitose de um exame de sangue do dia anterior e a tomografia. O cirurgião me internou, iniciou o preparo para a cirurgia e pediu para fazer novo exame de sangue.

Assim estava eu, de uma hora para outra, deitado na enfermaria da emergência, novamente no soro, aguardando para subir para o terceiro andar, o da cirurgia. O pânico instalado na família, as ansiedades naturais de um acontecimento destes. Naquele momento estava sozinho. A minha esposa tinha subido para fazer a internação. Ao meu lado o outro paciente da emergência, um senhor com dores abdominais horrendas. Várias vezes falou que só queria morrer para a dor parar. A esposa, ao lado, pedia que não blasfemasse.

As pessoas reagem de forma diferente. Quando na quinta feira entrei com um quadro semelhante, no mesmo hospital, só pedia que Deus olhasse por mim, o que me era sempre reconfortante. A crença de que existe algo superior, zelando por nós, ajuda a enfrentar as piores crises.

Enfim, estava perdido nestas divagações quando o cirurgião voltou.

__ Esta sentindo dor?

__ Não.

__ Nenhuma?

__ Não.

Em seguida ele apalpou meu abdome em vários lugares, a resposta sempre a mesma. Nenhuma dor.

__ Vômito?

__ Não.

__ Mal estar?

__ Não.

Jogou um papel sobre minha barriga.

__ Dê uma olhada.

Era o resultado do laboratório para o novo exame de sangue. Os leucócitos estavam normais. Aliás, aproveito para explicar. Nem todo mundo sabe, mas o nível alto dos leucócitos mostra uma infecção no organismo. Um dos aprendizados destes três dias de hospital.

__ Esta sua tomografia só veio atrapalhar. Sem ela, eu nunca, em hipótese nenhuma, pensaria em te operar. Nem mesmo em pedi-la! Não vou te cortar sem necessidade, já que está aqui, vou mantê-lo em observação. A tarde repetimos o exame de sangue, fazemos outros, e reavalio a situação.

Eram 11 horas. Assim começou meu dia no hospital.


Levaram meu vizinho para fazer uma radiografia. A mãe e a filha permaneceram conversando na enfermaria. Fiquei observando os detalhes práticos que as mulheres, sempre elas, tomam neste momento. Trocar de roupa, organizar o almoço, filhos, etc. A esposa, uma senhora de aspecto muito distinto, parecia extremamente calma.

__ Seu pai é muito manhoso.

Ela assentiu.

Fiquei sabendo que ele estava com dores desde o dia anterior, mas como a maioria dos homens, eu inclusive, ignorou-a e foi trabalhar. Voltou a noite com dores, foi dormir. De manhã já não aguentava mais, enfim aceitou ir ao hospital.

Estou melhorando neste aspecto. A qualquer sinal de dor no abdome me mando. Não gosto nem um pouco desta estória de dor.

Elas estavam nesta conversa quando a mãe fez um sinal e as duas sentaram segurando o riso. Ele estava chegando.


Meu maior companheiro do dia foi A Retirada da Laguna. Ficava distraído, acompanhando a narração de Taunay sobre a longa caminhada das tropas brasileiras na Guerra do Paraguai. Não conseguia deixar de notar o contraste entre o atendimento médico proporcionado pelos dois médicos militares na campanha com os recursos que via agora no hospital.

Armando e Denise apareceram. Ele me trouxe um livro para ler, sobre o Dalai Lama. Mostrei-lhe o livro que estava lendo. Ele riu.

__ Retirada da Laguna?

__ Claro. Só por que vou entrar na faca vou ler um livro religioso? É mau agouro. Parece que já estou preparando minha alma! Não tem um padre aí pelo corredor?

__ Não é religioso. É sobre a vida, é filosofia.

__ Pois é, um dia eu leio. Por hora prefiro A Retirada. É bom para conhecer um pouco das origens do Exército Brasileiro.

__ Desconfio de todo livro escrito por um nobre.

__ Taunay não era nobre na época da guerra, era Major. __ na verdade uma incorreção, ele era segundo tenente engenheiro.

__ Mas ele já não tinha o título?

__ Não sei, mas ele serviu como oficial regular das forças no Mato Grosso. Era o secretário da expedição.

__ hummm.

Fizemos algumas piadas, rimos bastante, e foram almoçar. A Eliene aproveitou e foi também. Fiquei com meu livro. A expedição brasileira encerrara a rápida invasão e iniciara a retirada. Os paraguaios iniciaram uma estratégia de incêndios para futigar a coluna. Era uma arte deles, pois além de saber onde iniciar o fogo, tinham um conhecimento dos ventos, fundamentais para levá-lo em direção aos brasileiros. O guia Lopes, conhecedor da região, foi fundamental para evitar maiores baixas na tropa ao conduzi-los para locais de abrigo.


Começando a ficar entediado, fiquei sabendo algo mais sobre meu vizinho. Ele agora dormia. Tinha chegado ao nível máximo de medicação contra dor: a morfina. Eliene voltou. Já eram duas da tarde. Minha mãe liga novamente. Quer uma solução, que tire logo o apêndice já que não faz falta. É uma opinião bem comum, mas toda cirurgia tem seus riscos e um pós-operatório. Pelo que tinha me dito o cirurgião o corte não iria ser do mais simples, o lateral. Teria que abrir de frente. Explicou alguns termos técnicos, não entendi muito bem. Mas o gesto dele, de cima a baixo da barriga, este ficou muito claro.


__ Quero ver o que acontecerá antes.

__ Como?

__ Se o fim da retirada da Laguna ou um diagnóstico.

__ Retirada?

__ É, a do livro. Eles estão andando igual aos hobbitts. Dá agonia. Estou cansando só de pensar.


Quando estavam no fim da retirada, com os paraguaios afrouxando um pouco a perseguição, começou a epidemia de cólera. Vitimou o guia da expedição, o comandante e o sub-comandante. O quadro descrito por Taunay é estarrecedor. No meio do pantanal, dois médicos, sem alimentos, com muito pouca água, faziam de tudo para trazer algum alívio aos doentes. Tiveram que abandoná-los, não havia mais forças para carregá-los. Foram massacrados pelos paraguaios. É uma decisão terrível, para qualquer comandante, abandonar feridos. Talvez tenha sido a mais difícil do Coronel Camisão. Tomou-a um dia antes dele próprio ter sido acometido pela moléstia.


As 18:00 houve a troca do plantão. O novo cirurgião, este mais experiente, foi ter comigo. Expliquei tudo de novo. Ele apertou, apertou, nada de dor.

__ Deixa eu te explicar uma coisa. Um exame é só um exame. Ele acompanha a clínica, esta é a mais importante. Não posso me basear apenas nele. Se fosse assim, não precisava de médico. O mais importante é o que o paciente sente e o que o clínico percebe. Eu não percebo nada que justifique uma cirurgia. Vou repetir alguns exames e vamos fazer uma nova avaliação.

Ele foi para a sala das enfermeiras. Pediu que chamassem o sobreaviso da radiologia, queria um ultrassom.

__ Estou com um laudo de apendicite mas o paciente vai "muito bem, obrigado". Quero mandar o cara para casa.

O sobreaviso já tinha sido chamado, o paciente do meu lado também iria fazer o mesmo exame.

Um enfermeiro me trouxe um remédio, o luftal, era necessário para o ultra-som. Dois minutos depois, uma enfermeira trouxe o mesmo remédio. Disse que já tinha tomado. Éramos dois pacientes para 4 enfermeiros que batiam papo animadamente. Olhei para o lado. Era bom meu companheiro tomar cuidado, ainda saía dali sem o apêndice.


Era só o que faltava para me sentir no seriado do House. Tinha feito exame de sangue, urina, raio-x, tomografia. Não, não me refiro ao ultra-som, embora faça parte de meu dia de ator de seriado médico americano, refiro-me ao passeio de cadeira de rodas. Minha esposa teve que me empurrar, a enfermeira estava com problema de coluna. Haviam mais dois enfermeiros sentados batendo papo. Vai entender.


O médico radilogista estava num casamento e de excelente humor. Disse que tinha falado com o cirurgião, e concordava que o exame não poderia ser definitivo. Perguntei se tinha olhado a tomografia, disse que sim, mas que não vira a apendicite. Passou gel na minha barriga e começou. Claro que houveram as piadas sobre o sexo do bebê, mas no que importa ele foi claro: não via o apêndice, o que era um bom sinal. Só dava para vê-lo se estivesse inchado.

Voltei para minha cama, eram 8 da noite.


Depois de um pouco mais de espera, o cirurgião voltou. Leucocitose normal, ultra-som não indicou nada. Resultado: receberia alta. Lógico que com observações: dieta moderada, qualquer sinal de anormalidade voltar correndo para o hospital. Agradeci, me despedi dos familiares do meu companheiro, que já estava partindo para a endoscopia, e voltei para casa. Liguei para todo mundo, contei a mesma estória.

Segunda volto ao hospital onde tudo começou e converso com minha médica. Se ela tinha uma pulga atrás da orelha quando solicitou a tomografia, agora quem a tem sou eu. Vamos refazer esta tomografia, não quero ficar aqui na expectativa que a qualquer momento tenha um apêndice estourado na minha barriga. Só fico lembrando do primeiro filme da série Alien. Cruzes.


Ah, sim. Terminei a Retirada da Laguna. Muito me ajudou neste dia. O contraste com pessoas que estão em situação infinitamente pior que a nossa nos ajuda a entender um pouco nossa própria situação. E ser paciente.

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u© MARCOS JUNIOR 2013