Sobre a Temperança

O livro VII de Ética a Nicômaco trata da temperança e é um dos temas de Aristóteles que mais tem a ver com os dias de hoje. É uma das virtudes cardeais descritas pelo estagirita; as outras seriam justiça, prudência e fortaleza.

O capítulo é uma extensa discussão à respeito da temperança, sua natureza e seus limites, vou tentar resumir o que entendi.

Temperança

Let us next begin a flesh part of the subject by laying down that the states of moral character to be avoided are of three kings - vice, unrestraint, and bestiality. The opposite dispositions in the case of two of the three are obvius: one we call virtue, the other self-restraint. As the opposite of bestiality it will be most suitable to speak of superhuman virtue, or godness on a heroic or divine scale.

Os estados morais de caráter a serem evitados são de três tipos __ vício, intemperança e bestialidade. A virtude seria oposta ao vício, a temperança à intemperança e a virtude sobre-humana, heróica ou divina à bestialidade. Pelo que entendi desta introdução, temperança não seria exatamente uma virtude, teria outra natureza.

Para Aristóteles, temperança seria a capacidade do homem de evitar se deixar dominar pelas paixões, que o impele a agir no sentido contrário ao que aponta sua razão. O intemperante é aquele que abandona o caminho correto por não conseguir resistir ao apetite concupiscente.

Segundo Sócrates, a intemperança não existe pois o homem só é mal pela ignorância. Dispondo do conhecimento do que é correto, seria impossível agir de outra forma. Se a intemperança é causada pela ignorância, esta só poderia ser entendida de uma forma diferente de Sócrates. Aristóteles resolve pela distinção entre conhecimento e opinião. O intemperante age não contra o conhecimento, mas contra sua opiniões. Este homem pode ser perdoado por abandonar suas opiniões pelos desejos, mas seria condenado pelos vícios apresentados.

Aqui vejo uma sutil diferença da temperança para a virtude. A intemperança não seria um vício, mas levaria ao vício já que o homem se entregaria às paixões e falharia pelo excesso, o que na definição de Aristóteles configuraria o vício. Assim o homem que comete adultério pelo desejo sexual por outra mulher é intemperante, mas o vício que incorre é justamente o de se deixar levar pelo prazer sexual.

O conhecimento que está presente quando o homem falha na temperança não é o conhecimento no sentido verdadeiro, mas o conhecimento da percepção sensível. Aquele fruto das sensações.

Intemperante pelo ódio.

Para Aristóteles o homem que se torna intemperante pelo ódio é menos condenável do que o que age pelos prazeres, tendo em vista que o primeiro tem sua razão comprometida pelo forte sentimento.

O ato intemperança motivada pelo ódio causa a dor e não o prazer.

Again, a wanton outrage gives pleasure to the doer, never pain, whereas an act done in anger always causes him a feeling of pain.

Relação com a prudência

Aristóteles deixa claro que a temperança refere-se a escolhas. O homem é intemperante quando escolhe o prazer sobre a reta razão. A prudência é a virtude que refere-se a reta razão no agir, portanto não é possível para um homem prudente ser intemperante.

A confusão muitas vezes acontece pela confusão entre habilidade e prudência. Os dois referem-se a capacidade do homem em realizar determinadas tarefas a que se propôs; a prudência, entretanto, tem um faceta a mais do que a habilidade, ela está relacionada com a moral.

Um ladrão que consegue grandes golpes é um homem habilidoso, mas não é prudente. É possível para um homem ser habilidoso e intemperante, mas não prudente e intemperante, pois a prudência refere-se ao conhecimento do que é bom e não a opiniões.

Outro ponto interessante é que o homem temperante sofre ação dos prazeres, só que ele é capaz de controlar seu apetite concupiscente. Não é sinal de fraqueza ter desejos que contrariem nossas opiniões, mas sim de ceder a eles.

Prazeres

Na última parte do livro VII, Aristóteles trata dos prazeres.

Trata das seguintes opiniões:

  1. Nenhum prazer é bom, seja acidental ou essencial.
  2. Alguns prazeres são bons, a maioria não.
  3. Todos os prazeres são bons, entretanto o prazer não pode ser o bem supremo.

Argumenta que existe o bem absoluto e aquele que é bem para alguém, o relativo. Da mesma forma, alguns males absolutos podem não ser mal para uma determinada pessoa ou em uma determinada circunstância. Ninguém gosta de tomar injeção, mas para uma determinada pessoa em uma determinada situação ela é um bem, por exemplo ao aliviar a dor.

Existem prazeres que não envolvem dor ou desejo, como por exemplo o da contemplação; estes não implicariam em deficiência na normalidade.

Aristóteles refuta a primeira e terceira opiniões, e defende a segunda. Alguns prazeres, aqueles que não implicam em dor ou desejo, são bons e podem estar relacionados ao bem supremo tais como a leitura, a contemplação. Outros, que relacionam-se principalmente com os prazeres do corpo devem ser evitados pelos excessos que provocam. O homem prudente busca libertar-se dos prazeres para libertar-se da dor a eles associado.

Um último alerta do filósofo: nada pode continuar a nos dar prazer sempre pois nossa natureza não é simples pois contém um segundo elemento (a alma?) e estes dois devem estar balanceados. Ao se privilegiar um, negligencia-se o outro.

Abril, 2008

u© MARCOS JUNIOR 2013