Seminário de Filosofia

Poucas pessoas são tão polêmicas no Brasil quanto Olavo de Carvalho. Para seus detratores, e são muitos, é um radical de direita, adepto da teoria da conspiração, um prepotente. Pois ele é tudo isso. É um radical de direita à medida que você aceita a visão esquerdista que quem não está com ela, está contra ela. Pois pouquíssimas pessoas são tão anti-esquerda quanto Olavo de Carvalho. Neste contexto, ele é um direitista fanático. Também é um adepto da teoria da conspiração. É bom lembrar que qualquer um que dissesse pouco antes de estourar a II Guerra Mundial que a Alemanha iria entrar em Guerra com o mundo inteiro, ocupar a França em questão de semanas, citiar a Inglaterra e exterminar 6 milhões de judeus em fornos crematórios também seria tachado de adepto da teoria da conspiração. Pois Olavo prega que existe um grande movimento mundial que busca implantar um governo global no planeta. Um movimento que atua em três vertentes: uma elite política-econômica globalista, o islamismo e o comunismo. Também é prepotente porque afirma claramente que é o único filósofo vivo no Brasil, sem meias palavras. Diz que a única forma de aprender filosofia no Brasil é com ele.


Só que aos poucos, muitas pessoas estão tomando conhecimento de Olavo de Carvalho mesmo com um boicote sistemático de praticamente todos os meios de comunicações no Brasil. Tudo porque há coisa de 5 anos atrás, escrevendo no Globo, passou a denunciar sistematicamente a associação dos partidos de esquerda do Brasil, especialmente o PT, com o narco-tráfico das FARCs. Tudo através do Foro de São Paulo, a entidade que só muito recentemente, a contra-gosto, começou a ser reconhecido na grande mídia brasileira. O mais absurdo é que Olavo apenas chamou atenção para os documentos públicos divulgados, na internet, pelo próprio Foro em que afirmam a ligação ideológica entre partidos e movimentos sociais de esquerda na América Latina para restabelecer aqui o que foi perdido no Leste Europeu com a queda do Muro de Berlin. Seus maiores expoentes eram Fidel Castro e Lula; entre seus integrantes, as FARCs. Mas isso é outra estória. O fato é que Olavo incomodou muito com essa estória e acabou mandado embora do Globo, posteriormente do JB, da Zero Hora e hoje só escreve no Diário do Comércio. Esta é a idéia da esquerda sobre um debate e liberdade de expressão. Ela só existe dentro dos limites impostos pela esquerda, como Ann Coulter descobriu recentemente no Canadá.


Bem, este é o Olavo das primeiras camadas, dos artigos de jornal e seu podcast. Seu objetivo é comentar os fatos recentes e chamar atenção para o que está acontecendo. É sua veia mais polêmica e visível. Existem outros trabalhos do filósofo, estes muito mais profundos e importantes, entre os quais, o seminário de filosofia. O seminário é um curso dado por ele pela internet. Seu ponto de partida é que não existe mais vida intelectual no Brasil, principalmente nas chamadas ciências Humanas. As universidades são antros que conjugam burocracia com ideologia esquerdista de quinta categoria. Nossos intelectuais são incapazes sequer de entender o que defendem. Pouquíssimos marxistas, por exemplo, são capazes de ler e entender Marx. A esquerda nem precisou vencer um debate cultural pois a direita recusou-se a travá-lo e o resultado é que a cultura brasileira foi tomada de assalto pelo pensamento monopolítico da esquerda em suas várias formas. Uma prova é o fato de só existirem partidos e políticos de esquerda no Brasil, como foi dito com alegria por Lula outro dia. Sob aplausos dos intelectuais. Este é o ideal de democracia deles. O fim do pensamento conservador e o totalitarismo cultural das esquerdas.


Não é que todo brasileiro se tornou esquerdista, o que seria impossível. O foco foi outro, incapacitar o brasileiro, em todos os níveis, de pensar o mundo real. Só assim se pode compreender o que se faz nas escolar brasileiras há mais de vinte anos, do primário à universidade. É muita ingenuidade supor que a qualidade do ensino no Brasil é fruto apenas da incompetência das políticas educacionais; ao contrário, elas foram muito eficientes para atingir os fins que se propuseram.


Neste contexto, Olavo deu como perdido a batalha pelos corações da alta cultura brasileira, se é que se pode usar este termo. Percebeu que a única saída era que uma nova geração surgisse com uma qualidade que fizesse toda a diferença: a capacidade de pensar com seriedade. E foi assim que montou seu seminário de filosofia, convencido que se conseguisse passar esta mensagem para algumas dezenas de alunos já faria uma enorme diferença. Pois surpreendeu-se. Não se trata de algumas dezenas de alunos, mas algumas centenas. Sua maior dificuldade hoje é operacionalizar o curso para tanta gente, já que utiliza uma estrutura praticamente doméstica para suas atividades. É o puro "home teaching". Entre este pessoal, encontra-se este que escreve estas linhas. O curso já tem mais de um ano e estou acompanhando as primeiras aulas, mais precisamente a oitava.


Ao contrário do que poderia imaginar, o curso é bem diferente do que se vê em seus artigos e no podcast. Sai o Olavo inflamado, polêmico. Entra o professor ponderado, calmo, buscando iluminar e dividir seus estudos de décadas. Não é um curso de propaganda conservadora ou de direita, pouco se falou de política ou ideologia até agora; o foco é a atitude filosófica. Para ele, só nós podemos estabelecer critérios para verificar a verdade das idéias que chegam a nós. Ninguém, nem mesmo ele, pode fazer isso. Olavo retoma a idéia principal de Sócrates, nós temos que buscar a verdade em nós mesmos. Como se fazer isso? Este é o grande tema do seminário de filosofia.


Um dos pontos iniciais do curso é a impossibilidade de se pensar idéias, estudar filosofia, antes de desenvolver a capacidade de imaginar o que é possível e o que é impossível. Uma pessoa cuja visão de mundo são as novelas da Rede Globo, best sellers ou a maioria dos filmes do cinema jamais será capaz de pensar filosoficamente ou por si mesmo pois ela é incapaz de discernir o possível do impossível. Daí a importância de educar o imaginário antes de pensar com seriedade sobre as coisas. Isso não é novo, é Aristóteles. O primeiro ano do curso de Olavo é somente para isso, educar o imaginário. Como se faz isso? Primeiro pela experiência real. É preciso observar as pessoas, os acontecimentos que somos testemunhas diretas e principalmente guardar estas referências, estes símbolos que tomamos contato. É preciso ser fiel a nossa experiência imediata, por mais dolorida que seja. No entanto, só isso não basta pois a quantidade de situações possíveis é tão grande, embora longe de infinita, que é impossível e indesejável que experimentemos todas. Afinal, ninguém quer ser assaltado para tentar entender como se sente uma pessoa nessa situação. Para nossa sorte, existem pessoas que dedicam sua vida a registrar simbolicamente estas experiências do mundo real através de um dos instrumentos mais antigos da humanidade: a literatura. Entenda-se aqui em seu sentido mais amplo, incluindo poesia, música, teatro, cinema, etc. Os grandes escritores ou criadores são aqueles que conseguiram registrar com fidelidade as experiências da existência. Quem já sentiu ciúmes na vida consegue se ver em Bentinho, quem desejou vingança se vê no Conde de Monte Cristo. Não naquela dimensão evidentemente, mas aspectos de sua experiência real estão evidentes nestes personagens.


Para encurtar, voltei minhas leituras mais para a literatura recuperando um imenso tempo perdido. Quais livros ler? Outro ponto interessante de Olavo que mostra o caráter não dogmático do seu curso. Ele deu algumas dicas iniciais mas recusa-se a fazer uma lista, tanto de livros de literatura quanto livros de filosofia. Cada um tem que montar sua própria lista através de um processo de pesquisa. Segundo ele, se passarmos um ano escrevendo uma lista de leitura de filosofia, por exemplo, teremos aprendido mais do que um ano lendo livos a esmo.


Estou tentando fazer isso agora. Comecei por Chesterton. Minha intenção é colocar uma página na internet, o mais rápido possível e ir melhorando-a continuamente. A vantagem de ter uma página pública, ligada a um post de blog, é que posso receber sugestões e outras visões sobre a mesma obra. É fundamental não ficar preso a uma única resenha, a um único ponto de vista. Ao final de um certo período, talvez o ano sugerido por Olavo, terei uma lista para seguir durante a vida. Muito provavelmente nunca chegarei perto de terminá-la. É meio angustiando saber que não temos tempo para ler tudo que gostaríamos durante uma vida, mas ter uma lista, feita por mim mesmo, já é um caminho a seguir.


Retomando o ponto que comecei, pelo que vi nestas oito aulas que acompanhei, principalmente pelos questionamentos que foram enviados pelos alunos por e-mail, acho que futuramente a cultura brasileira poderá sofrer o impacto que está precisando. O pessoal está levando o curso muito a sério e estão dispostos a romper o status quo que foi estabelecido pela hegemonia cultural da esquerda. Tem muita gente talentosa ali.


É minha maior esperança para vencer esta guerra. Se ainda der tempo.


Abril, 2010

u© MARCOS JUNIOR 2013