Para tudo haverá propósito?

Outro dia um amigo comentou comigo que acreditava que tudo tinha um propósito, que nada na vida acontecia por obra do acaso. Lendo Santo Agostinho esta semana, no início de Contra os Acadêmicos, encontrei esta passagem:

Talvez o que vulgarmente se chama fortuna é regido por uma ordem secreta e o que chamamos acaso nos acontecimentos se deve ao nosso desconhecimento das suas razões e causas, e não há nenhum acontecimento particular feliz ou infeliz que não se harmonize e não seja coerente com o conjunto de tudo.

Mais adiante, Agostinho acrescenta:

Se a divina previdência se estende até nós, do que não se deve duvidar, acredita-me, o que está acontecendo contigo é o que é necessário acontecer.

Trata-se, antes de tudo, de uma mensagem de esperança. Muitas vezes acontecem adversidades inexplicáveis em nosso caminho e clamamos: eu não merecia isso! Será? Será que realmente não merecemos certas coisas que nos acontecem? Nossa perplexidade não estaria influenciada por nossa incapacidade de entender algo maior do que nós? Por não compreender o conjunto que tornaria coerente os acontecimentos particulares?

Muitas vezes precisamos passar por alguns sofrimentos, faz parte da nossa experiência de viver. Se tudo desse certo para nós, em cada particular, teríamos uma vida melhor? Valorizaríamos as coisas boas da mesma forma? Ou cairíamos no fastio pela vida? Será que não perderíamos a noção do sofrimento que as pessoas passam?

Quando somos injustiçados, quando a fortuna nos prega uma peça, estamos aprendendo que existe injustiça, que existe coisas que acontecem que fogem ao nosso controle. É um convite à humildade, ao entendimento que existe um plano maior que ainda não conseguimos compreender. Talvez tenhamos que passar por coisas ruins para valorizar e entender as coisas boas e principalmente para despertar nossa solidariedade com o próximo.

Todo sofrimento é uma oportunidade. Uma chance para nos testarmos, para nos assegurar de nossos valores. Na adversidade, compreendemos mais um pouco de nossa própria natureza, de nossos limites, de nossas falhas. Exercitamos nossa paciência, nossa tolerância, nossa humildade, nossa fé. Mais do que questionar o que está acontecendo, devemos trabalhar para superar o momento da melhor maneira possível e seguir adiante.


Dezembro, 2008

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