O fim do século XX



Dizia Hegel que os anos de rupturas dos séculos não eram na passagem de um para o outro e sim cerca de 15 anos depois. Queria dizer que os grandes acontecimentos da história moderna que indicavam mudança seriam 1415 (Batalha de Agincourt), 1520 (encontro de Francisco I, Carlos V e Henrique VIII), o meio do século XVII com o assassinato de Henrique IV e a ascensão de Richelieu, 1815 (Batalha de Waterloo) e 1914 (inicio da I Guerra Mundial). É como se o relógio dos séculos estivesse 15 anos atrasado.

A segunda generalização feita por Hegel é que na história das idéias é importante perguntar de onde elas vieram, o que são e o que significam. Assim, o os períodos podem ser divididos desta forma:

século XVI: 1515-1615: idéias italianas (o nascimento da real-politics)

século XVII: 1615-1715: idéias francesas (iluminismo)

século XVIII: 1715-1815: idéias britânicas (revolução industrial)

século XIX: 1815-1915: idéias germânicas (vontade de poder)

Se Hegel estiver certo, estamos nos aproximando do final do século XX apenas agora, perto de 2015. E o que foi o século XX? Quem dominou? Os Estados Unidos com a democracia moderna ou a revolução tecnológica? Ou os soviéticos com o comunismo? 

Em uma primeira aproximação, penso que as idéias que vigoraram no mundo a partir de 1915, ou 1917, foram do comunismo. Mesmo que vários países não tenham se tornado ditaduras comunistas, foram de alguma forma afetados pelas idéias de Lenin e sua turma. Nasceu a social-democracia, o socialismo fabiano, as guerrilhas, o narco-tráfico organizado como movimento social, os sem-terra, o pensamento de governo mundial, o keynesianismo, a contra-cultura, o partido democrata foi cada vez mais para a esquerda e por aí vai. 

Sim, a União Soviética deixou de existir mas suas idéias continuam fortes a ponto de podermos dizer que a economia dos países ocidentais se voltaram mais para o fabianismo (estado dirigindo mas não tendo posse dos agentes econômicos) do que para o capitalismo clássico. No campo político, todos os países tem o governo mais forte hoje do que no início do século XX, mesmo o Estados unidos. Cuba, Coréia do Norte, Venezuela são símbolos decadentes de um tipo de comunismo que morreu com a União Soviética. Resta a China com um comunismo mais híbrido.

Estamos nos aproximando da época, em torno de 2015, que esse período deveria terminar. O que nos indica que Hegel pode estar certo?

  • A morte eminente de Hugo Chávez, Fidel Castro e o início de uma transição na Coréia do Norte. Não se sabem para onde vai estes países-prisão, mas com certeza sofrerão mudanças.
  • A crise econômica global causada pelo endividamento absurdo dos governo e suas sociedades. Paul Krugman pode gritar o quanto quiser mas seu Keneysianismo não tem como dar certo e nunca deu. Não há como combater uma crise de dívida fazendo mais dívida! A crise mundial é uma consequência do tamanho monstruoso dos estados e não da ganância dos mercados.
  • O surgimento, ainda incipiente mas que vai crescer, da consciência que a população mundial vai entrar em declínio e que as consequências para a sociedade são simplesmente desastrosas. A própria economia de consumo irá para o brejo.
  • A insuficiência de uma cultura que rejeita a transcendência e tenta praticar algo inspirado no epicurismo, no Carpe Diem, na ilusão da liberdade absoluta. A nova geração está dando sinais que não quer seguir este caminho, que deseja um retorno a fundamentos mais sólidos para uma vida em equilíbrio.

Claro que existem fatores como a China, que continua crescendo e levando a bandeira do comunismo, ainda que ligado ao mercado. Entretanto, o terceiro fator, o declínio populacional, que causará um forte envelhecimento, vai derrubar a China que não terá como suportar a pressão de uma população idosa gigantesca. O mesmo vai acontecer com as nações islâmicas que envelhecerão sem terem enriquecido. E sem tecnologia.

Olhando o noticiário parece que o predomínio dos governos sobre os cidadãos é irreversível e cada vez mais intenso. Talvez estejamos assistindo as últimas tentativas  de preservar uma época que está começando a acabar, a dos grandes governos.

Mais do que o comunismo, talvez seja esta a criação do século XX, dos governos tipo Big Brother, que tudo e a todos controla. Ou talvez este tipo de governo seja exatamente a consequência das idéias comunistas. Não sei, mas acredito que os governos estão chegando ou chegaram no ápice do poder que podem acumular. E se chegaram ao ápice, quer dizer que o equilíbrio é instável, que uma hora vão começar a cair.

Aguardemos para ver se Hegel tinha razão.


u© MARCOS JUNIOR 2013