Dois Caminhos, Duas Faces

No primeiro conto que escreveu sobre o padre Brown, Chesterton o colocou diante de um ladrão disfarçado de padre, que tentava roubar uma cruz azul de imenso valor. Para surpresa de Flambeau, o ladrão, padre Brown desconfiou de sua verdadeira identidade e lhe aprontou uma boa peça. Ao ser preso, Flambeau questionou seu adversário, como ele tinha desconfiado? Em que ponto falhara em seu papel? Brown respondeu: “Você atacou a razão. É má teologia”. O genial autor inglês referia-se a uma aliança que estava na essência da religião cristã: fé e razão tinham que apontar para a mesma coisa, a verdade. Eram mais que duas faces de uma mesma moeda, eram os dois caminhos para salvação.

É preciso entender a força com que Jesus se definiu como o caminho, a verdade e a vida. São três aspectos fundamentais para entender o evangelho, a boa nova do Cristo, e que não existem separadamente. O caminho se refere as escolhas morais que temos que fazer; a verdade com a necessidade de aceitar a realidade tal como se apresenta; a vida com a parte criadora de nossa existência. Não se trata de uma mensagem muito diferente de Aristóteles, que dizia que a existia três dimensões para a existência humana: a moral, o conhecimento e a técnica. 

A modernidade, na sua ânsia de romper a ligação da fé e a razão, que estiveram no centro existencial da Idade Média, nos convenceu que se tratavam de dois reinos distintos. A religião seria o aspecto subjetivo das nossas vidas, afeto aos sentimentos e na divisão entre o bem e o mal. A ciência seria a parte racional, o aspecto objetivo, que seria verificável materialmente através de um poderoso método de investigação que se deu o nome de método científico. Cada uma viveria afastada da outra, em reinos independentes.

Muito antes disso, a grande inteligência da Idade Média, São Tomás de Aquino, reconhecia esses dois grandes reinos, ou caminhos, que conduziam à salvação das almas: a razão e a fé. Para ele, seria perfeitamente possível chegar a Deus através do uso da racionalidade humana. Se Deus era a verdade e a razão um instrumento para descobri-la, a conclusão lógica é que através da razão se chegaria a Deus. Só havia um problema, reconhecia o senhor angélico, o esforço era hercúleo, a ponto de escapar a capacidade humana. Homens como Sócrates e Platão chegaram perto de descobrir Deus pela razão, mas mesmo o maior dos filósofos não conseguiu dar-lhe uma face, e um nome. Se o caminho para a verdade, ou seja, para Deus, passasse apenas pela razão, o que seria da esmagadora maioria das almas? Como um homem humilde, que passou sua vida cultivando a terra, cuidando de sua família, debaixo do sol como dizia o Eclesiastes, poderia alcançar o grau de especulação filosófica para chegar a Deus? Esse mesmo Deus seria muito injusto se deixasse a salvação a alcance de uns poucos homens privilegiados, que tinham não só talento mas condições para se dedicar a essa empreitada. Para São Tomás, a revelação era também um ato de misericórdia divina, que exigia pouco da capacidade racional do homem para aceitar a verdade. Não quer dizer que fosse irracional, longe disso, para que Jesus fosse ouvido foi necessário que muitos efeitos bem visuais fossem feitos. Uma chave para questão está no episódio que os discípulos de João Batista perguntaram se era ele que estavam esperando, o messias anunciado por João. Cristo respondeu-lhes: não estão vendo os cegos enxergarem? As curas? Vão e contem o que viram. Jesus não exigiu uma fé cega, mas deu evidências que era alguém com poderes extraordinários. Deu a eles uma razão para ter fé.

Conta Joseph Ratzinger, o papa Bento XVI, uma iluminada mente do século XX, que em 1927, em Bruxelas, numa reunião de físicos bem conhecidos hoje, nada mais que Heisenberg, Pauli e Dirac, comentou-se que Eistein falava muito de Deus e que Max Planck era da opinião que não havia nenhuma contradição entre a ciência e a religião. Heinsenberg discordava profundamente. Para ele tratava-se de duas esferas totalmente diferentes. Nas ciências naturais estavam a distinção de certo e errado; na religião o bem e o mal. Eram as faces objetiva e subjetiva do mundo. No entanto, Heisenberg confessava “não me sinto bem com essa separação. Duvido que as comunidades humanas possam conviver longamente com essa rigorosa separação entre crer e saber”. Pauli acrescenta: “a completa separação entre saber e crer é certamente um recurso provisório por um tempo bem limitado. No âmbito da cultura ocidental, por exemplo, poder-se-ia chegar, num futuro não remoto, a um tempo onde os símbolos e imagens das religiões atuais não possuíssem mais força convincente, nem mesmo para o povo simples; nessa altura, receio eu, também a ética habitual ruiria em pouco tempo e aconteceriam coisas de um horror tal que não podemos agora fazer idéia alguma”. Os físicos estavam na prática retornando a São Tomás: por mais poderosos que fossem os caminhos das ciências naturais, estaria sempre fora do alcance da maioria. É um paradoxo, mas os grandes cientistas só conseguem transmitir suas descobertas através de atos de fé das pessoas normais. Ela acreditam no cientista, e por isso aceitam suas conclusões. Ou vocês acham que a teoria da incerteza de Heisenberg é facilmente compreensível ao leigo? Na prática, uma classe de natureza sacerdotal, de professores e jornalistas especializados, passaram a fazer a mediação entre os gênios e o vulgo. Para o homem comum, a ciência era uma questão de fé. 

Bento XVI coloca o problema de forma clara: quando não se pode mais se harmonizar com as certezas elementares de uma visão de mundo, então a religião se extingue. Para o papa, apenas ancorada na verdade, uma religião poderia persistir no tempo, repetindo uma colocação de São Tomás. O santo afirmava que poderia acontecer uma contradição entre fé e a razão. Considerando que a verdade (Deus) tinha que prevalecer sempre, uma das duas coisas tinha acontecido: ou as conclusões racionais estavam erradas, ou a interpretação da revelação estava equivocada. São Tomás de Aquino, simplesmente o maior pensador da Igreja em 20 séculos, um santo da Igreja, afirmava que uma interpretação teológica poderia estar errada e que a razão poderia prevalecer em determinadas situações. Não posso deixar de observar que o grande nome da Igreja tinha um pensamento mais de acordo com o que se chama de cientista do que muitos que usam esse adjetivo hoje, agarrados a seus dogmas pessoais e exigindo submissão de seus fiéis. Finalizando, Bento XVI afirma que a crise que vivemos consiste na falta de uma adequada mediação entre razão e sentimento, objetivo e subjetivo. Sutil, o papa já coloca a religião, a fé, como a mediação entre razão(vontade) e sentimento(desejo), retomando o argumento de Platão em A República.

O cristianismo nunca esteve em oposição à razão, ao contrário, levou-a às últimas consequências. Tanto as universidades como o próprio método científico são filhos da Igreja, como mostra de forma contundente o historiador Thomas Woods no indispensável “How the catholic church built the western civilization”. Querer atacar a fé, como fazem os modernos, é querer destruir os próprios fundamentos de nossa civilização. Não é por acaso que o resultado só pode ser o caos, como perceberam Heinsenberg e Pauli em 1927.

u© MARCOS JUNIOR 2013