Democracia

Um colega argumentou que não era partidário da democracia, que era a favor de uma um governo exercido por uma oligarquia. Parei para pensar. De fato, cada vez vejo menos pessoas dispostas a defender os valores democrático. Em um exercício de dinâmica de grupo que participei, tratando dos males que poderiam acontecer em um país, a esmagadora maioria dos meus colegas não considerou como um mal o fechamento da imprensa por 6 meses; chegaram a dizer que era pouco, que poderia ser fechada por 2 anos.

Acho isso tudo muito perigoso. A democracia é um regime instável por natureza, talvez o único que permita o contraditório. É possível ser anti-democrático nos Estados Unidos, mas não é possível ser democrático em Cuba. Talvez por isso precise que seja constantemente defendida. Uma das minhas investigações pessoais é sobre este crescente descrédito dos valores democráticos, resultando na proliferação de democracias de fachada ou semi-democracias, entre as quais incluo o Brasil.

A pergunta que me coloquei há algum tempo, e que todos deveriam pensar a respeito, é o que caracterizaria de fato um regime democrático. É possível em estado puro? Uma nação pode ser completamente democrática? Como está a situação hoje? Somos mais democráticos agora do que em 1989, quando o comunismo foi supostamente derrotado?

Estou longe de chegar nas respostas que busco, mas algumas linhas de investigação já se abrem a minha frente. Uma delas é a questão da representatividade. Acredito que para que haja um regime democrático de fato é preciso que toda a sociedade seja representada no parlamento, que deveria expressar a vontade da nação.

Isso acontece hoje?

Com a proliferação da cobertura da mídia em uma sociedade da informação, começo a perceber que a essência da atual representação parlamentar é o poder dos grupos de pressão sobre parlamentares. É possível identificar representantes de entidades de classe, seguimentos, algumas religiões, sindicatos, professores, alunos universitários, etc. Todos esses que conseguem usar um megafone e ter ressonância na grande imprensa são as verdadeiras influências dos deputados e senadores no mundo inteiro. Mas nem todas as camadas da sociedade conseguem exercer essa influência, o que gera um problema grave na própria democracia.

O cidadão comum não se sente representado no Brasil e cada vez menos nos países do primeiro mundo. O que vale são os movimentos políticos organizados, com a colaboração criminosa de jornalistas ideologicamente comprometidos. Um deputado está mais preocupado em agradar determinados grupos universitários do que alunos em alfabetização; estes não fazem pressão. Hoje não consigo identificar um único deputado no Congresso que possa dizer que está me representando. Uma imensa massa de pessoas, talvez a maior parte de um país, está completamente excluída da vida política, só ganhando alguma importância na época de eleições para legitimar a situação vigente. O resultado é o surgimento de um tipo de totalitarismo novo, uma ditadura "democrática".

A democracia nunca foi tão elogiada, justamente no momento que serve de justificativa para a concentração criminosa de poder na mão do estado. O estado terá cada vez mais poder até chegar a um ponto de ruptura onde sabe-se lá o que pode acontecer, mas isso é outra estória. O fato é que não encontro uma voz na sociedade para defender algo parecido com meu pensamento, embora, isso é importante, conheça um monte de gente que pensa parecido comigo. Se fosse uma voz isolada, vá lá, mas sabendo que meus valores estão em consonância com uma parte considerável da população, como indica diversas pesquisas e censos, por que não conseguimos ser ouvidos? Será que os protestos que ocorreram não tiveram, entre suas causas, justamente essa falta de canal de representação para grande parte da sociedade?

Tudo isso para dizer que a democracia não está consolidada em lugar nenhum, muito pelo contrário. A hipótese que comecei a investigar há quatro anos é justamente a que apresentei aqui: uma grande parte da sociedade não encontra representação parlamento; mais ainda, na política nacional. Isto é verdade? Quais as consequências? Até onde poderemos chegar com esta distorção da democracia?

Se você acha que um país é democrático apenas por eleger diretamente o presidente a cada quatro anos, está vivendo em negação. A democracia é bem mais do que isso, mas é preciso entendê-la, buscar os seus fundamentos, ver como se comporta na prática. E aqui embaixo a coisa anda bem esquisita. 


u© MARCOS JUNIOR 2013