Breve reflexão sobre a fé

Estou sobrevoando a Amazônia agora, cerca de uma hora de Manaus. Finjo ignorar a pequena turbulência que estamos enfrentando, é a melhor política nos dias de hoje...

Houve um tempo que não tinha o menor receio de voar. Não, não tenho pânico com a coisa, mas hoje em dia sempre que tenho um vôo marcado eu repenso a vida, ou mesmo o sentido da vida.

Olhando pela janela não posso deixar de pensar que foi mais ou menos aqui que uma aeronave da mesma empresa e do mesmo tipo que esta encontrou o seu fim. No tempo de um minuto um vôo normal, onde pessoas conversavam, crianças brincavam, transformou-se em destroços.

Não posso ter certeza de que realmente existe uma vida após a morte, embora a razão e a fé me digam que sim. Afinal, se tudo se acaba em um instante, com nosso princípio vital se perdendo na atmosfera, qual seria o sentido de tudo isso? Uma brincadeira de mal gosto do acaso?

Hoje passei os olhos por uma reportagem com um cientista defendendo que deixar de ter fé e crer em Deus é um sinal de evolução. Não sei em que direção; a negação do transcendental e o estabelecimento de uma moral baseada em valores essencialmente materiais já se mostrou um desastre. Mesmo que seja por meio da razão.

Foi assim que o humanismo deu o início a uma caminhada que colocou o homem como centro da filosofia, e nos levou às duas guerras mundiais e duas bombas nucleares lançadas sobre populações civis.

Observando as nuvens e esta incrível máquina de voar não posso deixar de pensar que tudo isso não poderia ser obra do acaso, ou do caos; deve haver uma mão por trás de tudo isso, chamem de Deus ou outro nome que preferirem. Mas não estamos sós.

Aqueles quase 200 que pereceram, por aqui, há um ano atrás, não se perderam, não desapareceram. Existem e observam entristecidos que nada se ganhou com o triste fim que encontraram. Viram, de algum lugar, uma nova tragédia que poderia ter sido evitada, e cujos responsáveis um dia pagarão, mesmo escapando da justiça dos homens.

Daqui a pouco estaremos pousando. A razão e a fé nos dizem para não temermos um vôo de avião. Mas existem coisas que elas não alcançam...

No filme Dogma, dois anjos caídos se encontram em um terminal de desembarque de um aeroporto. Um dos anjos pergunta por que o outro gostava tanto daquele lugar.

Este respondeu que ali estava a humanidade no que tinha de melhor. Problemas eram esquecidos, re-encontros aconteciam, uma atmosfera de alívio ganhava o saguão. O fato de saber que estiveram a 14 mil pés de altitude e que poderiam perder suas vidas em um instante, fazia que colocassem de lado o orgulho e, mesmo por instantes, experimentassem uma dos sentimentos mais sublimes que possuímos: a humildade.


(Publicado orignalmente em setembro 2007)

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