Até que ponto somos um produto social?

Que o homem é um animal social eu nunca tive dúvidas. Nascemos dentro de uma sociedade, somos educado dentro dela, estamos interagindo com ela durante todo o tempo. Muitos acreditam que o homem é um produto social. Tudo que falamos, pensamos e falamos seria uma expressão da sociedade em que vivemos. O homem seria um produto de seu tempo.

Será mesmo? Que a sociedade tenha enorme influência sobre o indivíduo parece claro, mas será que a sociedade define o indivíduo? Poderemos chegar no pensamento do homem através da sociedade em que pertence? Onde fica a liberdade individual dentro deste pensamento? Seremos seres livres? E Deus? Há espaça para Deus nesta concepção?

Tudo que nega a individualidade me incomoda profundamente; mais do que isso, me angustia profundamente. Se existe hoje um eixo para os meus estudos, para minha tentativa de compreender melhor o mundo é justamente a defesa da liberdade individual. A minha desconfiança da modernidade e seu fabuloso progresso está justamente neste ponto, a submissão do indivíduo.

Por isso esta concepção do homem como um produto social me coloca na defensiva, me levanta muitas dúvidas, me convida à reflexão. Aceitar que o homem na verdade faz parte de um devir histórico, de um constante fluxo cultural implica em compreender que não há liberdade possível. Ou não?

Qual seria o papel de Deus neste pensamento? Nossa idéia da divindade seria também um produto social? Uma explicação de um sentimento que existiu no homem desde a origem dos tempos? Deus seria apenas uma figura através do qual encontraríamos explicações para o que não conseguimos compreender?

Jesus Cristo também teria sido um fenômeno social? Um produto da sociedade judaica que estava inserido, uma espécie de reação às fórmulas religiosas de seu tempo?

Custa-me a crer neste pensamento. O homem de todas as épocas ainda parecem ter algo que os fazem muitas vezes serem capazes de transcender ao seu tempo e espaço, algo de inexplicável, de incompreensível. Ainda acho que no final de tudo está o livre arbítrio do homem, a sua individualidade. Por mais que a sociedade tenha influência sobre seus atos e decisões, a última palavra cabe a sua própria consciência, esta uma ligação direta com sua própria alma, uma alma eterna, uma expressão do divino.

Talvez por acreditar na existência da alma eu não consiga aceitar que o homem é apenas parte da sociedade em que vive. Fica faltando algo, fica faltando o mistério. E como dizia Chesterton, sem o mistério tudo mais se torna misterioso. Aceite-o e o mundo se torna claro como o dia.

Por isso prefiro acreditar no indivíduo e desconfiar da sociedade. E considerar que o homem é bem mais do que um produto social.


Janeiro, 2009

u© MARCOS JUNIOR 2013