Apascentando o Rebanho de Deus


Não cheguei nesta obra por força do acaso. Quem a recomendou foi o falecido poeta Bruno Tolentino em sua última aula, apresentada no primeiro número da magnífica revista "Dicta & Contradicta". A íntegra da aula, em gravação, pode ser escutada no site da revista.

Tolentino apresenta duas obras como fundamentais para compreender o século XX. A primeira, é a encíclica de Pio X, Apascentando o Rebanho de Deus; a segunda, A Traição dos Intelectuais, de Julien Benda. Esta eu já encomendei. Como o primeira está disponível na internet, comecei por ela.

Foi uma destas obras que fui obrigado a fazer um resumo bem mais cuidadoso, e mais longo. Na verdade, li as 32 páginas da encíclica três vezes. Houveram passagens que foi preciso ler outras várias. A riqueza e profundidade de Pio X é impressionante. O papa inaugurou, com este texto de 1905, a análise do modernismo, coisa que ninguém ousara antes.

Até então, o modernismo se definia pelo que não era. Pelo que não pretendia. A palavra de ordem era, e é, mudança. Para onde? Ninguém parecia saber muito bem, divergiam muito neste particular. Mas era preciso mudar e o grande vilão era a tradição, a história, a cultura. Se Pio X estivesse vivo hoje derramaria talvez sua última lágrima ao ver a maior nação da terra eleger um líder com esta única palavra: mudança.

Na verdade, o papa não precisaria esperar até hoje. Em 1914 ele viu horrorizado que estava certo. A Europa inteira iniciava uma guerra sem sentido. Seus piores receios se concretizaram, talvez nunca um homem tenha lamentado tanto estar certo. Pio X morreu pouco depois. Angustiado.

Em sua encíclica, Pio X não analisava nenhuma doutrina modernista em particular, fazia o mais difícil. Analisava o que tinha em comum, o que tinha de corpo principal em todas elas. Identificava o caminho para a negação da fé, para o relativismo religioso que acabaria não só com a Igreja Católica, mas com todas as religiões. O ateísmo dominaria o mundo, fundado em uma falsa ciência, senhora absoluta dos destinos da Terra, e os valores se perderiam para sempre.

Pio X não viveu para ver uma segunda guerra mundial, os gulags, os fornos crematórios nazistas, a crueldade comunista, as bombas nucleares, o terrorismo. Estamos hoje em um buraco, no fracasso da humanidade, e o cerne de tudo está nestas 32 páginas. Não é uma leitura fácil, exige reflexão, exige atenção. Mas é um destes textos que mudam sua visão de mundo.

O papa temia mais que tudo a infiltração das teorias modernistas na Igreja Católica. Foi outra coisa que não chegou a ver.

O quadro que Pio X visualizou era a perda total da autoridade da Igreja e a transformação do cristianismo em um religião moldável à evolução moral da humanidade. Os dogmas, o culto, os sacramentos, a Bíblia, até mesmo as palavras de Cristo seriam atualizadas, modificadas para seguir os novos tempos. Ao final, a religião seria disforme, algo a ser superado por um laicismo moderno e redentor.

Na origem de tudo, duas causas: o fascínio pelo novo e o orgulho. No fim, o ateísmo. A morte de Deus. A novo mundo.

Pio X viu o futuro. E tentou não acreditar. Infelizmente, acertou.


u© MARCOS JUNIOR 2013