Preço Justo - Parte II

_ Tratemos então do preço. O ato de se fixar um preço acima do que seria razoável para as pessoas pagarem consiste em um preço injusto, segundo concluímos até aqui.

_ Certo.

_ Posso concluir então que o empresário sabe quanto é o custo do seu produto e a partir dele cobra um preço de venda, para obter um lucro.

_ Exato.

_ A injustiça estaria em exorbitar este lucro.

_ Certamente, ele extrapola o que seria um valor razoável.

_ Examinemos então. Você dá aulas particulares não é mesmo? Quanto cobra?

_ R$ 40,00 a hora.

_ E quanto é seu custo?

_ Como assim?

_ Quanto custa para você esta hora? Para poder cobrar pela sua aula você tem que saber o seu custo, não é verdade?

_ O problema é que não tenho como saber meu custo, ele é intangível. Estou dando para meu aluno o fruto de tudo que aprendi na escola, não tenho como saber este valor.

_ No entanto, você cobra.

_ É evidente, preciso ganhar a vida.

_ E como chegou neste valor, R$ 40,00?

_ É o preço do mercado. Pesquisei, todo mundo cobra em torno deste valor.

_ Então neste caso o preço era dado independente do seu custo. A sua decisão era se aceitaria dar a aula por este valor?

_ Exato.

_ Então temos um problema, não foi a partir do custo que chegou no valor, mas o preço estava dado pelo próprio mercado. Se não foi você que fixou o preço, não há ato para julgar quanto à justiça.

_ Neste caso, não. No entanto nem sempre é assim. Na maioria das vezes você sabe muito bem qual é seu custo.

_ Vamos supor que um tomate, já que está na moda, custe em média R$ 3,00 o quilo. Imagine que você comece uma pequena horta, com toda a dificuldade de um novo negócio e computando as sementes, água, o salário de um auxiliar, transporte para a feira, seu custo por quilo chegue a 3,50. Quanto você cobraria?

_ Neste caso eu não teria opção. Se cobrar R$ 4,00 eu não vendo o tomate; se cobrar 3,00 eu levo prejuízo.

_ Portanto se eu te oferecesse este negócio, você recusaria?

_ Teria que recusar. 

_ E seu te oferecesse um processo em que o quilo do tomate custasse R$ 3,00. Aceitaria?

_ Mas o que eu ganharia? Teria todo o trabalho e meu lucro seria zero.

_ Então recusaria?

_ Claro.

_ E se fosse R$ 2,90?

_ Neste caso eu poderia pensar no negócio.

_ Imagina que você produzisse 100 quilos ao mês. Por quanto venderia seus tomates?

_ Por R$ 3,00.

_ Por que?

_ É o preço que todo mundo está vendendo.

_ Ou seja, o preço do mercado.

_ Sim. Entendo o que quer dizer, neste caso estou fazendo o mesma coisa da aula. Mas veja que o meu lucro por unidade é de cerca de 3%, o que me daria uma renda de R$ 10,00 por mês, o que é muito pouco por esse trabalho.

_ Ou seja, recusaria também.

_ Seria obrigado.

_ Qual seria o lucro razoável na sua concepção?

_ Imagino algo em torno de 10%.

_ E quanto você precisaria ganhar por mês para valer a pena?

_ Acho que uns mil reais.

_ Ou seja, seu custo por quilo teria que ser de 2,72 e teria que vender 3,5 toneladas por mês. Não vê o problema?

_ A situação parece complicada.

_ Agora imagina um pequeno produtor, agricultura familiar, que consegue um custo de 1,50 por quilo. Para ganhar estes mil reais, ele teria que produzir 670 quilos por mês e vendê-los todos a R$ 3,00. Supondo que conseguisse estes números. O ato de fixar o preço em R$ 3,00 seria injusto de sua parte?

_ Claro que não. Ele está apenas ganhando a vida.

_ No entanto ele teve uma margem de lucro de 100% por cada quilo. Isso é dez vezes maior que o lucro que considera razoável. Seria este agricultor um explorador?

_ Não creio. No fundo está fazendo tudo isso para ganhar pouco mais que um salário mínimo.

_ Sem contar um detalhe importante, ele não fixou o preço do produto. Ele foi dado no próprio mercado! Pode-se dizer que R$ 3,00 por um quilo de tomate seja caro, ou que seja barato, mas como dizer se é justo se o negociante não tem capacidade de fixá-lo?

_ Tudo isso parece razoável, mas estes R$ 3,00 são fixados pelos grandes proprietários. Eles produzem toneladas de tomates e podem escolher o preço que quiserem pois dominam o mercado.

_ Então a questão do preço justo agora se restringe ao grande negociante pois chegamos a conclusão que os pequenos nada podem fazer a não ser aceitar o preço de mercado. 

_ Correto.

_ Então continuemos nossa investigação.


(Continua em breve)


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