Culpa do povo?

_ Impressionante mais esse discurso da presidente. Esse falando que por trás de toda criança tem um cachorro. O pior não é nem isso, que sempre pode ser visto como um ato falho, mas toda forma como ela se expressa. Mostra uma mente confusa, incapaz de raciocinar com clareza, ordenar os próprios pensamentos. Como pode uma pessoa assim ser presidente da república?

_ Concordo. Acho que nem o Brasil merecia uma desgraça tão grande.

_ Será? Eu já acho que temos exatamente a presidente que merecemos, sem tirar nem por. O povo não votou nela? Agora aguente. Eu, pelo menos, tenho minha consciência limpa.

_ No fim, é o povo que sofre as piores consequências.

_ Merece. Estou cansado dessa história que o povo não tem culpa. Tem sim, ele não votou? Tem que ser responsabilizado, Dilma foi eleita por culpa do povo. 

_ Sabe, eu já pensei assim, mas hoje vejo a coisa por outro ângulo e não me parece ser tão simples. Lembra daquela menina que foi processada e condenada por um comentário na internet sobre os nordestinos? Que eles eras responsáveis pela vitória da Dilma?

_ Foi exagero a condenação, no fundo ela tinha alguma razão. Sem aqueles 80% de votos no nordeste ela teria perdido a eleição.

_ Possivelmente, mas o que me chamou atenção no episódio era que o nordestino tinha seus motivos para votar na Dilma, afinal boa parte dos gastos sociais do governo foram na região. O mapa de concessão do bolsa família mostra isso bem nitidamente. 

_ Exatamente, isso é compra de voto. Quem recebe benefício vota no governo. Só que esse cidadão está na verdade se prostituindo por uma esmola governamental. Está se condenando a se manter em um círculo de miséria e mantendo um governo incompetente e corrupto desde que continue a ganhar seus trocados. Nem percebe que a inflação está voltando, os empregos estão sumindo,  os impostos estão cada vez maiores, tudo para manter esta estrutura gigantesca que o PT ampliou.

_ E teria como saber?

_ Como assim?

_ Esse brasileiro, que recebe bolsa família, no interior do nordeste, teria como saber de tudo isso?

_ Claro que sim, o povo não é burro. Se não sabe é porque não quer.

_ Será? É este o ponto que me fez começar a pensar. Qual é o horizonte de consciência dessa pessoa? O que realmente ela sabe de economia, política, e tantas coisas que fazem a vida na sociedade? Lembra aquele livro do Alberto Nunes, Cabeça de Brasileiro? Lá eu vi uma coisa curiosa. Em uma pergunta sobre percepção de corrupção, 25% dos brasileiros com curso superior achavam que não era corrupção aceitar um presente de um fornecedor para lhe garantir um contrato com a administração pública. Entre os brasileiros com apenas primeiro grau completo, esse índice chegava a 50%.

_ Está vendo? Nosso povo é corrupto por natureza. Metade desses assalariados, que vivem de bolsa família aceitam a corrupção. Como poderiam escolher diferente?

_ Mas é esse o ponto. O autor do livro formulou a tese que o grande problema do Brasil era a educação, que à medida que tempo fosse passando e aumentasse nosso nível educacional sairíamos desses 50% e nos aproximaríamos dos 25%. Estamos apenas pagando o preço de uma população iletrada, sem cultura. Em resumo, nossas elites são melhores do que nosso povo, tem melhores valores, como podem ser expresso em diversas estatísticas, como essa da percepção da corrupção.

_ Como te falei, a culpa é do povo.

_ Mas não é. Acho que ele viu a coisa pelo ângulo errado. Que a educação torne as pessoas melhores, capazes de compreender melhor as coisas, isso está na base da filosofia de Sócrates, para quem o homem praticava o mal por causa de sua ignorância. Eu duvido muito que haja alguma sociedade em que de alguma forma essa compreensão não seja melhor nos seus estamentos mais educados e esclarecidos, ou mesmo conscientes. O grande ponto que ele não viu, e que grita na pesquisa, ao meu ver, é que um em cada quatro graduados em universidades acha que não é corrupção aceitar presentes de fornecedores para garantir uma licitação. Esse índice teria que ser perto de zero! Quando aceitamos que esses 25% são razoáveis, não podemos reclamar do homem comum, que só conseguiu terminar o primeiro grau, geralmente em escola pública de péssima qualidade, tenha 50% chance de aceitar uma coisa dessas. Esse homem é educado ou influenciado justamente por esses 25%.

_ Acho que tem razão neste ponto.

_ Uma cultura é transmitida a partir de suas elites. Coloque-se na condição desse homem no interior do nordeste, o que ele percebe? Ele é educado em uma péssima escola pública, provavelmente seguindo o método de deseducação do Paulo Freire misturado com Piaget e Vygostsky, e logo abandona a escola para ganhar a vida em um sub-emprego pois não consegue ver a finalidade de passar o ano inteiro na escola e não conseguir entender um texto. É bombardeado o dia inteiro com notícias nos jornais que exaltam as ações sociais do governo e colocam a corrupção em termos que ele absolutamente não consegue entender, sempre com aquela palavra suposto na frente, para indicar que nada é provado. Recebe a idéia que a corrupção é inerente à política, que todos os partidos são iguais. No nível local, sofre o bombardeio de propaganda das prefeituras sobre esses mesmos programas sociais, além da inacreditável máquina de propaganda do próprio governo federal. No jornal nacional, sua principal fonte de informação, vê a Dilma inaugurando placas como se aqueles investimentos fossem de verdade, como se não tivessem custos nenhum, pois ninguém interrompe a reportagem para dizer que não há recursos para aquela obra ou que para fazer aquele estádio vai ser hipotecado seu futuro. Como ele pode perceber o absurdo que é um governo como o nosso quando ele vê que gente com muito mais estudo e acesso a informação que ele defende essa situação? Ele não sabe quem é Marilena Chauí, mas essa idiota forma professores e jornalistas, que irão educar a classe média e que por sua vez vai chegar até ele de alguma forma.

_ Como assim?

_ A Marilena forma um pseudo-filósofo na USP. Esse cara vai dar opinião na Globo News e por sua vez vai influenciar um professor universitário, especialmente das humanas. O professor vai dar aula para os professores da rede pública que por sua vez vai estar educando o nosso bolsista. Ou então o funcionário público que o atende, que lê o blog do Sakamoto e gosta de Chico Buarque, vai falar para ele das virtudes do governo popular. Ou vai ver na novela uma propaganda disfarçada do governo. Ele não tem para onde escapar!

_ Mas tem algo errado aí. Por que os 75% não os influenciam mais que os 25%?

_ Por que esses estão ocupados em ganhar a vida, pouco se interessam por política. Normalmente são engenheiros, médicos, dentistas, advogados. Podem ocasionalmente votar no PT e até ter ideais de esquerda, mas se assustam em ver algo como o mensalão e conseguem falar, opa, aqui tem treta, estão usando um discurso de esquerda para fazer safadeza. Mas no meio dos 25% estão os ideólogos, para quem tudo se resume a luta política do bem contra o mal, que aceitam um mensalão se for para promover a justiça social. Sabe onde estão essas pessoas? Escrevendo artigos em jornal, dando aulas na universidade, atuando em novelas. Não é à toa que a maior concentração de ideólogos estão nas carreiras relacionadas com formação de opinião. Lembre-se que a esquerda tem como uma das suas bases mudar o mundo, uma atitude ativa. O que se chama de direita, pois ela mesmo não se define assim, tem a posição de cuidar da sua vida e não querer que o estado diga o que deve fazer. Quem você acha que tem mais voz junto a massa do eleitorado?

_ A esquerda.

_ Veja que na verdade temos dois problemas. De um lado, a grande maioria da população brasileira tem nível lastimável de educação, como atesta nossos recentes 38% de analfabetos funcionais com curso superior completo. Como eles podem saber alguma coisa sobre taxa de juros, bolha de crédito, desenvolvimento sustentável, efeitos do câmbio e etc? O horizonte de consciência deles só consegue chegar no salário do mês e na comida na mesa. Nesse aspecto eles viram ganhos no governo Lula, até porque não conseguem relacionar essa informação com o que acontece no resto do mundo. Quem explica para eles que fomos de reboque em uma situação externa favorável? 

_ É verdade. E qual o segundo problema?

_ O viés claro de esquerda de nossos formadores de opinião! Isso afeta a sociedade inteira, mas quanto maior a capacidade de entender coisas básicas, que aprendemos com a cultura, melhor conseguimos nos defender na ideologia, mesmo assim com enormes dificuldades. Mas os assalariados espalhados pelo Brasil são muito mais influenciáveis. Eles pouco sabem de história, de política, de economia. Só podemos responsabilizar quem tem condições de entender o contexto brasileiro, será que esse bolsista do interior do nordeste tem?

_ Muito pouco. Mas existem coisas que saltam aos olhos...

_ E porque essas coisas que saltam aos olhos não conseguem convencer nem que teria obrigação de ser convencido? Como pode um professor universitário ensinar as virtudes do regime do Fidel? Como pode um economista ainda raciocinar em categorias marxistas? Como pode um professor de filosofia colocar Nietzsche acima de Aristóteles? Como pode existir um Chico Buarque, um Caetano? Uma cultura se transmite do topo, quando a elite está doente, a sociedade degenera e se torna desordenada. Apenas com a cura das nossas cabeças pensantes podemos ter esperanças de que o povo compreenda as coisas mais básicas. Veja que ele nem tem a opção de não votar pois o voto, no Brasil, é uma obrigação. Ele não compreende absolutamente nada de vida política, é tratado pelo governo como um incapaz, e é obrigado a escolher seus dirigentes. Tem como a coisa funcionar?

_ Tem razão, mas como sair dessa sinuca?

_ Eu vou saber? O que sei é quem os que deveriam estar pensando nisso estão doentes, o que me sugere o ponto zero de toda uma verdadeira mudança na sociedade brasileira.

_ E qual seria?

_ Que os pensantes coloquem a cabeça no lugar. O resto a gente vê depois. 

u© MARCOS JUNIOR 2013